segunda-feira, 23 de agosto de 2010

OPALA


A primeira ideia para o meu mestrado, em 2007, foi discorrer sobre a saga da Umbanda no município de Pedro II, Piauí. Mas, por alguma razão, deixei de banda a Umbanda (que virá em outro livro: “Umbanda por estas bandas”) e escrevi (orientado pela doutora Dione Morais) sobre os pequenos garimpeiros de opala, a quem chamei de “bamburristas” para distingui-los dos demais sujeitos da cadeia produtiva da opala: grandes garimpeiros, empresários da opala, joalheiros, lapidários e técnicos.
O presente livro, pois, trata-se de uma versão (adaptação seria melhor) em linguagem mais acessível ao grande público da dissertação a que fiz referência acima. É, também, uma tentativa de disponibilizar um primeiro trabalho de cunho sociológico sobre esses homens que ariscam a vida em busca dessa gema cuja importância tanto econômica quanto simbólica terminou por cunhar o termo “Terra da Opala” quando nos referimos ao município piauiense de Pedro II.
Ora, Pedro II já teve outras alcunhas, dentre estas, “Suíça piauiense”, “Terra da rede”, “Terra da água boa”, “Terra de mulher bonita” (que continua atual). Mas por que, então, apenas a alcunha “Terra da Opala” ganhou um portal na entrada da cidade? Por que quando nos identificamos por esse mundo de Deus como filhos do município de Pedro II, as pessoas vão logo dizendo “Da terra que tem opala”?
Então a opala é como um cartão de visita do município para o mundo. No entanto, mesmo pessoas relativamente bem informadas pensam que a opala é uma “pedra”, quando trata-se, na verdade, de uma gema. Outras pessoas ainda acreditam que a opala traz azar, má sorte. “Traz, sim, mas para quem não encontra ela”, como me disse um velho e sábio garimpeiro durante minha pesquisa para o mestrado. Sabe-se menos, ainda, como vivem, o que pensam e o que dizem os pequenos garimpeiros de opala.
Após seis décadas de exploração dessa gema no município, foi sobretudo a partir do Festival de Inverno (cuja sétima edição ocorre em 2010), juntamente com a implantação do Arranjo Produtivo da Opala (APL Opala) que a gema alcançou status de verdadeira celebridade dentre as demais conhecidas. Isso, talvez, pelo fato de cada gema de opala ser  única (cada uma apresenta características gemológicas e sobretudo visuais particulares), como costumam repetir à exaustão aqueles que com ela lidam.
Seja como for, A Terra da Opala, Pedro II, é um dos poucos lugares do mundo onde essa gema é explorada, tendo na Austrália o único concorrente de peso. Com mais de 34 garimpos, 500 garimpeiros, 20 lojas de ourivesaria, lapidação e venda de opala (com mais de uma centena e meia de proprietários e trabalhadores), à época da desta pesquisa; com práticas garimpeiras tão díspares como a extração manual e a que emprega máquinas possantes, com pequenos garimpeiros ganhando cerca de cento e vinte reais mensais (dados de 2008) e empresários da opala ganhando em euro cem vezes mais, eis que a opala povoa o inconsciente coletivo dos pedrossegundenses e tem uma marca profunda na formação da identidade sociocultural dos pequenos garimpeiros, como pretendemos demonstrar nas páginas seguintes. Vitimizados, contudo, por um processo de invisibilidade social, esses homens fazem parte de uma cadeia produtiva que na qual não tem vez nem voz. Por outro lado, a sociedade pedrossegundense os ignora, acentuando o estigma da invisibilidade.


LIMA, E. G. de













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